Bertioga expõe tradições indígenas em 1º Encontro
da Cultura Guarani
Prefeitura da Cidade quer colocar
a Aldeia Ribeirão Silveira no roteiro turístico municipal
Fonte:http://www.atribuna.com.br/noticias/noticias-detalhe/cidades/bertioga-expoe-tradicoes-indigenas-em-1o-encontro-da-cultura-guarani/?cHash=21dc34933fb3d9b4ef8c04d1e297da3e
O caminho
é primitivo. A lama, cercada de mato, dificulta a chegada na Aldeia Indígena
Ribeirão Silveira, uma área de 85 quilômetros quadrados na divisa de Bertioga
com São Sebastião. Mas no local, onde vivem aproximadamente 600 índios
guaranis, a influência do homem branco é evidente. Arcos, flechas e cachimbos
típicos se misturam aos relógios de pulso, celulares, garrafas de refrigerantes
e roupas de todo tipo.
A aldeia,
que é divida em cinco núcleos (como se fossem bairros), não está aberta ao
público, mas é possível agendar visitas. A Prefeitura de Bertioga pretende
torná-la parte de um roteiro turístico e para maior divulgação realiza o 1º
Encontro da Cultura Guarani. O evento começou no sábado (05/09) e segue até
segunda-feira (07/09), sempre das 10 às 17 horas.
Não há
grandes rituais ou hábitos inusitados. Porém, algumas tradições são conservadas
e aguçam a curiosidade dos visitantes. Ao som de músicas religiosas (que ecoam
de caixas de áudio com amplificadores), os índios pintam o corpo – sempre com
alguma simbologia - e fazem artesanato (cocares, brincos, colares, enfeites)
para a venda.
Também
oferecem comidas típicas, como o palmito com mel e o biju – uma espécie de
tapioca feita com mandioca ou fubá.
Hospitaleiros,
recebem as pessoas em casas de madeira e barro. No fogão à lenha sempre há algo
para oferecer. O prato de ontem foi arroz branco, feijão preto, salada de
tomate com cebola e linguiça na brasa. Não é bem uma comida das tribos, mas é
servida para agradar às visitas.
Enquanto descasca
um tronco de palmito pupunha sob olhares atentos de crianças (aliás, são
muitas) da aldeia, o cacique Adolfo Timótio, liderança local, conversa com a
Reportagem. Fala da proteção de Nhanderu Tupã (Deus Nosso Pai) e de como
merecem ter suas origens respeitadas.
“É
importante que venham aqui, para mostrarmos a nossa cultura para a sociedade.
Porque quem não conhece, não respeita. Hoje é preciso ter esse conhecimento,
respeitar que somos diferentes e que precisamos da terra, da natureza”,
discursa, em tom firme.
- Aprendizado
Professora
de Português da rede municipal de São Sebastião, Shirlei Costa Rodrigues
costuma levar seus alunos para conhecer a aldeia. Levam brinquedos e roupas
para doação. “É importante mostrar a cultura indígena e como a miscigenação
deles com os portugueses gerou a nossa língua. Os estudantes também aprendem
outros valores, que não é preciso tanto para ser feliz”.
Os índios
realmente são humildes no comportamento. Ficam felizes em estar descalços ou
ver correrem cachorros e galinhas pelo chão de terra batida. Mas podem
surpreender, como um que pediu o contato da Reportagem e lhe foi passado o
telefone. “Quero o e-mail, índio também acessa a internet”, disparou, de
imediato.
- Como chegar
- Como chegar
O acesso ao local é feito pela Rodovia
Rio-Santos, em Boraceia. Fica à esquerda, logo após a entrada de São Sebastião
(há uma placa indicando a aldeia e índios vendendo artesanato no acostamento).
Em caso de chuva, o caminho fica difícil para carros.
Comentário
Mesmo não sendo o passeio
mais atrativo, ver diretamente essas tradições milenares, estando num ambiente
próprio onde até hoje habita esse povo indígena, pode se mostrar um programa
alternativo bem inusitado, além de enriquecedor em termos de conhecimento sobre
uma das mais antigas culturas brasileiras.
Hoje em dia, apesar dos
programas de proteção e legislações para garantir os direitos dos indígenas,
existem diversas terras de reservas que vem sendo ocupadas ilegalmente.
Portanto, uma iniciativa como essa garante que haverá um controle maior sobre
as pessoas que transitarão nessa região, que se transformará em uma região turística,
o que, consequentemente, trará maior segurança para os indígenas, já que as
ocupações ilegais serão muito dificultadas.
O cacique não poderia estar mais certo ao afirmar
que "É importante que venham aqui, para mostrarmos a nossa cultura para a
sociedade. Porque quem não conhece, não respeita.", pois a divulgação
dessas tribos e de seus hábitos faz com que mais pessoas se mobilizem para ajudar
a defender os direitos dos índios.
Além disso, a venda do artesanato para os
visitantes gera uma fonte de lucro para essa população, que pode ajudar a
adquirir produtos industrializados que possam ser necessários para garantir a
sobrevivência dos índios (como medicamentos, por exemplo).
Além de toda a beleza das danças, dos instrumentos
e cocares, essa visita é um mergulho na história, pois apesar das influencias
modernas (celulares, relógios etc.), os mesmo rituais realizados hoje eram
feitos por índios antes do descobrimento do Brasil.
Algo que me impressionou na matéria foi a
hospitalidade com que os indígenas não só receberam os turistas, mas também
partilharam com eles sua cultura e até mesmo prepararam comidas que os
agradassem mais. Apesar de parecer simples, uma recepção como essa exige
bastante trabalho e desprendimento desse povo que tem tão pouco, mas mesmo
assim está disposto a compartilhar o que tem.
Em suma, eu admiro a iniciativa da prefeitura de
Bertioga, pois trata-se de uma maneira criativa e benéfica de integrar a
cultura indígena com a sociedade moderna, e realmente espero que o objetivo de
transformar essa aldeia numa área turística se concretize, desde que respeitem
a privacidade e a maneira de viver dos indígenas.



