topo de página

terça-feira, 15 de setembro de 2015

MUNDO - 3º Bimestre 2015


Supermodelo russa gera debate global ao denunciar

preconceito contra irmã autista
Uma supermodelo iniciou um debate global a respeito dos direitos de pessoas com deficiência na Rússia.




Fonte:http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/08/150814_modelo_russa_denuncia_preconceito_fn








Natalia Vodianova já foi capa das principais revistas de moda


do mundo e fez campanhas para os nomes mais famosos
 
Um incidente envolvendo a irmã da modelo Natalia Vodianova, Oksana, aconteceu no dia 11 de agosto.

Oksana, de 27 anos, tem autismo e paralisia cerebral e tinha ido a um café acompanhada da cuidadora. Era um dia quente na cidade de Nizhny Novgorod e as duas tentavam descansar.

O dono do café não gostou da presença das duas e pediu para que Oksana saísse alegando que ela estava "assustando os clientes".

Natalia Vodianova, uma das modelos mais famosas do mundo e que já foi capa da Vogue e fez campanhas para Calvin Klein, entre outros, postou a história do que aconteceu com a irmã logo no dia seguinte, 12 de agosto.

Segundo o post da supermodelo, eis o que aconteceu dentro do café: a cuidadora de Oksana fez um pedido no café e então o dono do local apareceu exigindo que as duas saíssem imediatamente.

"Saiam. Vocês estão espantando os clientes. Vá procurar um médico para você e para sua filha. E, depois, saia em público", teria dito o dono do café.

Depois que a cuidadora explicou que Oksana tinha necessidades especiais, o dono do café aparentemente chamou seguranças para obrigar as duas mulheres a saírem.

"Saiam, ou vamos chamar um hospício, uma ambulância e vamos trancar vocês em um porão", teria dito um dos seguranças, segundo Natalia Vodianova.

Larisa, a mãe de Natalia e Oksana, estava trabalhando, foi chamada e foi até o café. Depois de muita discussão, Larisa tirou Oksana e a cuidadora de dentro do café, mas a história ainda não terminou.

As três mulheres foram levadas até uma delegacia de polícia suspeitas de "vandalismo".





O post de Natalia Vodianova denunciou a humilhação da irmã, Oksana
- Inquérito

Um dia depois de a supermodelo divulgar a história em sua página do Facebook, o post já estava com 80 mil curtidas e 4,7 mil comentários.

Com isto, a história foi parar em noticiários de grandes redes de televisão e jornais internacionais.

Apesar de terem sido levadas para a delegacia acusadas de "vandalismo", não foram feitas acusações formais contra Oksana, a cuidadora e a mãe, Larisa. Ao invés disso, foi instaurado um inquérito policial para saber se houve "humilhação da dignidade humana" por parte dos proprietários do café.

Os donos do café se defenderam afirmando que Oksana estava se comportando "de um jeito estranho".

"Ela ficou sentada no chão durante uma hora. Ela batia a cabeça contra a parede", disse Anar Bayramov, o filho do dono do café em uma entrevista para o canal de televisão estatal Rossiya 1.

Alguns se manifestaram a favor dos donos do café nas redes sociais.

"Acho que a aparência de uma pessoa doente não melhora o apetite", comentou uma pessoa no VKontakte, a versão russa do Facebook.

Mas, muitos postaram comentários a favor de Oksana e contra os donos do café.

"Estas pessoas [ preconceituosas ] são doentes, elas são uma vergonha para a humanidade", comentou Sarmad Akram, na página de Facebook de Vodianova.

Outros russos famosos também fizeram críticas.

"Nunca mais vou pisar no café Flamingo e espero que vocês me apoiem", disse a editora-chefe da revista The New Times, Yevgeniya Albats.




 
1° IMAGEM - Yevgeniya Albats prometeu, no tuíte, nunca mais 'pisar' no café onde Oksana foi humilhada e pediu para que outros fizessem o mesmo

 

2° IMAGEM - 'A irmã de Vodianova sofre de paralisa cerebral e foi chutada para fora de um café em Nizhnoy Novgorod. Humanidade e gentileza atualmente não estão na moda.'


Outros questionaram os motivos da supermodelo, afirmando que ela só queria a atenção da imprensa.

"Os deficientes não têm nada a ver com isso. Vodianova inflacionou os Relações Públicas, no estilo ocidental", tuitou uma pessoa não identificada.

"Tendo tanto dinheiro, por que, senhorita Vodianova, você não deu à sua irmã uma vida em, por exemplo, algum centro de saúde apropriado para pessoas doentes, no litoral?", perguntou um usuário do VKontakte.

- 'Típico'

Para especialistas, a situação com a irmã de Natalia Vodianova é algo "típico" da Rússia e "toda família com um filho assim" enfrenta uma situação parecida.

Irina Dolotova, gerente de projeto na Road to World, uma organização de caridade russa que dá apoio a crianças com necessidades especiais e às famílias destas crianças, conversou com a BBC.

Para ela, a Rússia "está no começo do caminho" em termos de proteção dos direitos das pessoas com deficiência.

"A situação é nova. Até a década de 1990 não era considerado aceitável mostrar estas crianças, havia muitas crenças supersticiosas e havia pouca conscientização na sociedade", afirmou.

Os jornalistas Lee Kumutat e Kathleen Hawkins, do blog BBC Ouch, especializado no assunto, afirmam que os efeitos de um incidente como este podem ser duradouros para as pessoas com deficiência.

Eles lembram que os Jogos Paralímpicos de Inverno em Sochi, em 2012, foram um sucesso em termos de acessibilidade. E também há uma legislação que se relaciona exclusivamente às pessoas com deficiência, adotada em 1995.

Mas, Tanya Cooper, da ONG Human Rights Watch, disse que estas leis não se relacionam à discriminação, cobrem apenas os benefícios, empregos e subsídios.

No momento, o dono do café está sendo investigado pelo Comitê Federal de Investigação russo. Mas Cooper disse que faria mais sentido usar leis contra discriminação de forma mais consistente ao invés de aplicar um artigo mais severo do código criminal, que pode resultar em cinco anos de prisão.



Cooper morou em Moscou e afirmou ainda que a discriminação contra pessoas com deficiência é "desenfreada e enraizada" na Rússia e muitos russos tratam pessoas com deficiência "como se elas fossem doentes e tivessem que ficar longe de lugares públicos".


 
A modelo Natalia Vodianova (à direita) e sua irmã, Oksana



Comentário


A meu ver, uma coisa é preservar a cultura e as tradições de um país. A outra, bem diferente, é manter uma mentalidade arcaica e preconceituosa, discriminando pessoas que nem ao menos tem capacidade de se defender.


As autoridades russas precisam imediatamente tomar uma atitude para acabar com esse tipo de situação, conscientizando a população sobre o óbvio: as pessoas com deficiências também são humanas, e devem ser tratadas como tal.


Na realidade, é necessário até mesmo um cuidado especial, pois todos os dias elas enfrentam vários obstáculos na realização dos mais simples feitos, e persistem na luta contra seus limites; portanto, elas devem ser motivadas a continuar, e não repudiadas por tentar fazer programas normais, como simplesmente ir à uma cafeteria.

Uma pessoa que fez um comentário na postagem de Natalia Vodianova perguntou porque a supermodelo não colocou a irmã em uma casa para deficientes. A resposta é simples: isso significaria isolar Oksana da sociedade, como se ela fosse uma espécie de ’'monstro'' que não pudesse chegar perto de humanos (o que parece ser o pensamento hediondo  comum a uma parte da população russa). A atitude de Natalia foi a mais correta possível, pois manter a irmã morando com ela, significa  dar à garota uma vida normal ( na medida do possível ) e ajudá-la a se integrar na sociedade.

Aqui no Brasil, por exemplo, a discriminação que parece ser comum na sociedade russa soa até mesmo um pouco ridícula, uma vez que, apesar de ainda haver preconceito, este é bem menos explícito na sociedade.

A iniciativa da modelo de condenar publicamente esse absurdo é louvável, assim como a da editora-chefe da revista The New Times, de não pisar mais no café, cujo dono e funcionaários que participaram dessa ação inescrupulosa deveriam ser punidos severamente por esses feitos. Mesmo pequenas acões como essa, diante do grande número de pessoas ignorantes e preconceituosas, acabam fazendo a diferença.

Espero que, um dia, a Rússia supere essa procrastinação na aceitação das pessoas com necessidades especiais, e se torne uma sociedade do século vinte e um, que aceite as diferenças e deficiências, como já vem acontecendo nas sociedades modernas.