Sem consentimento, app 'Rastreador de Namorado' é ilegal, diz advogado
Aplicativo monitora SMS, chamadas e localização de smartphone Android. Uso sem consentimento fere leis de privacidade e 'lei Carolina Dieckman'.
Fonte:http://g1.globo.com/tecnologia/tem-um-aplicativo/noticia/2013/08/sem-consentimento-app-rastreador-de-namorado-e-ilegal-diz-advogado.html
Site do aplicativo 'Rastreador de Namorado' que permite acompanhar atividade de smartphone com Android. (Foto: Reprodução)
O aplicativo “Rastreador de namorado”, vem chamando a atenção de curiosos e ciumentos ao permitir que ligações, mensagens de texto e a localização de smartphones com o sistema Android sejam acompanhadas em detalhes, por outro celular.
Conforme um teste realizado pelo G1, nesta sexta-feira (16) basta instalar o aplicativo em um smartphone Android e cadastrar o número do celular “rastreador” para acompanhar praticamente toda a atividade do aparelho.
Tela do aplicativo 'Rastreador de Namorado' instalado
em smartphone Android. (Foto: Reprodução)
em smartphone Android. (Foto: Reprodução)
Ao enviar mensagens de texto com sequências de números ao aparelho rastreado, o aplicativo reconhece os comandos e responde às mensagens com informações como detalhes de torpedos enviados pelo smartphone, incluindo o número de destino e o conteúdo da mensagem, a localização do aparelho – se o GPS estiver ativado – e se o smartphone está ligado ou em “Modo Avião”.
Outro comando por SMS faz com que o aparelho realize uma chamada de voz para o número cadastrado e permite que o som do ambiente seja ouvido.
Invasão de privacidade
Para o advogado especialista em direito digital, Victor Haikal, sócio do escritório Patrícia Peck Pinheiro Advogados, o fato de o aplicativo existir não é ilegal. “Da mesma forma que isso pode ser entendido como invasão de privacidade pelo namorado, se esse aplicativo estiver instalado por um funcionário de uma transportadora não poderia ser considerado crime”, afirma o especialista em direito digital. No entanto, segundo ele, o uso do app sem consentimento de quem está sendo rastreado fere leis de privacidade, incluindo a Lei 12.737/2012, a chamada Lei Carolina Dieckman, que entrou em vigor em abril.
“Se o namorado não consente a instalação do aplicativo, principalmente se a conversa telefônica for escutada e se o conteúdo da mensagem de texto for lido, isso pode ser enquadrado no crime de interceptação telefônica previsto na Lei 9296/1996”, diz Haikal. A infração, segundo ele, é passível de pena de reclusão de dois a quatros e multa.
Versão atual do 'Rastreador de Namorado' fica visível
na tela do smartphone rastreado. (Foto: Reprodução)
na tela do smartphone rastreado. (Foto: Reprodução)
Já o registro de duração e horário de chamadas telefônicas, de envio de mensagens de SMS é uma violação de privacidade passível de indenização “sem dúvida alguma”, afirma.
Conforme explica Haikal, a “Lei Carolina Dieckman” pode enquadrar a pessoa que desbloqueou um aparelho protegido por senha, sem consentimento, para instalar o aplicativo e monitorar os dados. Neste caso, a infração fere o Artigo 154 A do Código Penal, que prevê pena de reclusão de seis meses a dois anos.
Embora não seja ilegal, o aplicativo corre o risco de ser banido, segundo o advogado, “se o Ministério Público federal determinar que houve intenção de promover um crime."
"Modo escondido"
Criado pelos programadores Danilo Neves Cruz, de São Paulo, e Matheus Grijó, de Santos, no litoral paulista, o ‘Rastreador de Namorado’ atendeu a pedidos. “Algumas amigas dele [Grijó] pediram para usar o aplicativo para rastrear o namorado. Inicialmente ele desenvolveu uma primeira versão e me chamou para incluirmos novas funcionalidades e melhorarmos. Trabalhamos mais ou menos um mês nisso e lançamos essa nova versão há mais ou menos uma semana”, conta Cruz ao G1.
“É importante ressaltar que a gente recomenda que o aplicativo seja instalado com o consentimento do namorado ou namorada. A gente somente fornece uma ferramenta. Cada um usa como quiser", observa o programador quando questionado sobre o aspecto legal do aplicativo.
A primeira versão, lançada em junho, foi bloqueada há cerca de duas semanas, quando alcançou 100 mil downloads, “porque tinha um modo escondido e infringia as regras de privacidade do Google Play”, diz o programador. “Hoje, se a pessoa entra em contato por e-mail nós oferecemos o modo escondido ao custo de R$ 5 ao mês”, afirma.
Inicialmente, o smartphone rastreado também recebe mensagens sobre suas atividades, mas o app permite que essas notificações sejam desabilitadas e que somente o rastreador receba as informações. “Mesmo desabilitando as notificações o aparelho pode vibrar, mas responsabilidade é de quem fez isso”, observa Cruz.
Até ontem, segundo Cruz, a nova versão do aplicativo havia registrado 10 mil downloads. Segundo ele, o perfil de usuários está equilibrado entre homens e mulheres. “A gente direcionou o app para o público feminino, mas ele também serve para casais [ambos podem instalar o app], ou se um pai quiser usar para rastrear um filho, por exemplo”, diz o programador.
Cruz afirma que o 'Rastreador de Namorado' não poderá ser instalado em dispositivos em iPhones, mas que estuda com Grijó a viabilidade de criar uma versão para Windows Phone, futuramente. “No iOS é impossível fazer o aplicativo porque no iPhone é impossível um aplicativo ler um SMS que chegou, o fazer certas ações quando não está em primeiro plano”, explica.
Comentário:
Esse aplicativo, se for usado sem a pessoa saber que está sendo
rastreada, é totalmente antiético. Um relacionamento saudável entre duas
pessoas deve ser baseado em confiança e, mesmo que um dos dois tenha motivos
para desconfiar do outro, não possui o direito de usar o aplicativo dessa
maneira, mesmo que sejam casados, quanto mais se forem só namorados.
Se uma pessoa autoriza outra a rastreá-la, não há problema, mas,
como vemos na reportagem, esse rastreamento feito sem o consentimento da pessoa
é, além de tudo, ilegal.
Os programadores que criaram o aplicativo podem até ter tido a
intenção de ajudar as pessoas que estão desconfiadas de estarem sendo traídas,
mas quando o Google Play bloqueou a versão que tinha o "modo
escondido" (em que o o dono do celular não sabia que estava sendo
rastreado), os criadores mostraram que não estavam tão bem intencionados, pois
começaram a vender, por e-mail, por R$ 5,00 por mês, essa versão do aplicativo
com o "modo escondido", que não pode mais ser "baixada" no
Google Play.
Eu espero que os criadores desse aplicativo mudem de idéia e
passem a só oferecer a versão que exija a autorização do dono do celular que
estiver sendo rastreado, caso contrário,eles correm o risco de o aplicativo ser
banido e, tanto eles como as pessoas que pagam pela versão do aplicativo que
pode ser usado de forma ilegal, podem acabar presos.




