Airbnb cria polêmica ao oferecer hospedagem nas catacumbas de Paris, o
'maior túmulo do mundo'
Integrantes
de conselho parisiense apelaram à prefeita por desrespeito a mortos; rede de
túneis abriga restos mortais de 6 milhões de pessoas.
Fonte:
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/10/airbnb-cria-polemica-ao-oferecer-hospedagem-nas-catacumbas-de-paris-o-maior-tumulo-do-mundo.html
Airbnb teria pago 350 mil euros (R$1,68 milhão)
para alugar o local (Fotos: BBC)
Você se hospedaria no "maior túmulo do mundo"? E se ele
ficasse no subsolo de Paris?
O site de hospedagem Airbnb gerou controvérsia justamente ao oferecer
esta possibilidade aos seus usuários.
Segundo a empresa, os vencedores de um concurso de Dia das Bruxas serão
as primeiras pessoas a acordar nas catacumbas que ficam sob a capital da França,
onde estão guardados os restos mortais de 6 milhões de pessoas.
Líderes da oposição do conselho da cidade recorreram à prefeita Anne
Hidalgo pedindo que ela não esqueça de uma lei francesa que estabelece
"devido respeito ao corpo humano mesmo após a morte".
'Retrato da morte'
Mas o que exatamente os hóspedes encontrarão nas catacumbas de Paris?
Mas o que exatamente os hóspedes encontrarão nas catacumbas de Paris?
Bem, em primeiro lugar, milhões de ossos organizados como se fossem um
"retrato da morte", segundo algumas descrições do local.
Apenas uma parte do labirinto de túneis é aberta ao público, e
visitantes precisam descer 20 metros sob o solo para fazer um tour pela seção
de 2km das catacumbas onde os ossos estão guardados.
Eles são recebidos no local pela frase: "Pare, este é o reino da
morte". Esta é a primeira de uma série de mensagens gravadas nas paredes
das catacumbas para fazer os visitantes "refletirem".

Saúde pública
Os restos mortais que se encontram depositados nas catacumbas foram sendo levados pouco a pouco para o subsolo entre o final do século 18 e meados do século 19, quando os cemitérios superlotados de Paris foram fechados por questões de saúde pública.
Os restos mortais que se encontram depositados nas catacumbas foram sendo levados pouco a pouco para o subsolo entre o final do século 18 e meados do século 19, quando os cemitérios superlotados de Paris foram fechados por questões de saúde pública.
Na época, acreditava-se que o vinho e o leite estragavam rapidamente por
conta da decomposição dos corpos na cidade. O primeiro a ser fechado foi o
Cemitério dos Inocentes, em 1786.
As catacumbas são parte de uma enorme rede de túneis existente nas
entranhas de Paris formada pela extração de calcário e gesso a partir da época
romana para serem usados na construção da cidade.
Em 1774, o colapso de uma de suas câmaras fez com que o rei Luís 16
mandasse reforçar e mapear esta rede. A grande maioria dos túneis está fechada
para visitação pública desde 1955.
Entradas ocultas
No entanto, os mais de 250km de passagens subterrâneas podem ser acessados por meio de diversas entradas secretas espalhadas pela cidade, em seus esgotos, porões e túneis de metrô.
No entanto, os mais de 250km de passagens subterrâneas podem ser acessados por meio de diversas entradas secretas espalhadas pela cidade, em seus esgotos, porões e túneis de metrô.
Elas abrigam uma série de segredos. Em 2004, a polícia encontrou um
cinema completo, com telão, bar e assentos escavados na rocha. Também já foi
palco de shows de arte clandestinos, performances teatrais e rituais e festas
organizados por fãs das catacumbas, que são conhecidos por explorar os túneis
por diversão.
Segundo a agência de notícias AFP, o Airbnb pagou até 350 mil euros
(R$1,68 milhão) para alugar uma parte das catacumbas que pode ser visitada pelo
público à noite.
A empresa diz que dois hóspedes ainda terão direito a um concerto
subterrâneo e contação de histórias antes de dormir.
Segundo as regras da hospedagem, é "proibido perseguir fantasmas
pelas galerias" das catacumbas.
Comentário:
As Catacumbas de Paris não representam apenas um cemitério onde jaz parte
da população, mas também um pedaço importante da história da cidade, com suas
tradições, memórias e até mesmo superstições. Isso, acredito eu, foi o que
causou a maior parte da indignação da população para com a atitude desse site
de hospedagem.
Não obstante ter pesado a superstição de os cemitérios serem os
responsáveis pela decomposição do leite e do vinho, a criação desse enorme
complexo funerário se concretizou, certamente, por se tratar de um
aproveitamento inteligente das galerias subterrâneas já existentes, para
solucionar o problema da superlotação e da dificuldade de conservação dos
cemitérios parisienses, onde havia realmente o risco de concentração de focos
de doenças.
Apesar de o maior atrativo para os que participaram do concurso insólito
ser a possibilidade de dormir e acordar próximos a milhões de ossos e
inscrições funestas, as catacumbas deveriam ser procuradas e preservadas não
por esse tipo de curiosidade mórbida, mas pela sua importância histórica. Por
exemplo, em 1788, soldados da Revolução Francesa mortos em combate foram
sepultados diretamente nas catacumbas. Muito tempo depois, em 1871, em uma de
suas câmaras subterrâneas , um grupo de anarquistas foi assassinado por membros
da Comuna de Paris. O complexo também não só sobreviveu à Segunda Guerra
Mundial, como serviu de abrigo para membros da Resistência Francesa nesse
período, tendo até mesmo bunkers construídos em suas galerias.
Mesmo que atualmente, como a matéria menciona, apenas uma parte seja aberta
à visitação, a curiosidade pelos túneis seculares e pelos possíveis segredos
enterrados junto aos ossos ainda atrai muitos "aventureiros" ,
conhecidos como kataphiles, que exploram o subterrâneo parisiense. Desde a
segunda metade do século XX até hoje em dia, os mais diversos grupos
utilizam as catacumbas com diferentes propósitos, sendo eles ativistas
políticos, religiosos, artistas ou até mesmo usuários de drogas.
Além da questão histórica, para entender até que ponto é questionável
transformar um cemitério, seja do tipo que for, em uma espécie de "hotel
temático", sem correr o risco de atingir negativamente os valores morais
dos descendentes do povo ali sepultado, é preciso primeiro entender sua
história e o significado daquele local para essa gente. O que o site de hospedagem
viu como apenas uma nova forma de atrair clientes, em sua maioria turistas
estrangeiros, e gerar maiores lucros, vai claramente contra os princípios do
povo francês, princípios estes que foram inclusive transformados em uma
lei que exige o "devido respeito ao corpo humano mesmo após a morte",
o que demonstra, claramente, a importância dessa questão para a população
não só de Paris, mas de toda a França.
Isto sem falar no risco à saúde, pois a Airbnb compromete a integridade
física de seus "hóspedes", fazendo-os dormir em um ambiente insalubre
e colocando-os em exposição direta a todo tipo de microorganismos e matéria
putrefata. Também acredito que as instalações sanitárias, se existirem, são
extremamente precárias, uma vez que não deve haver encanamento nem de água nem
de esgoto nessa área do subterrâneo, destinada a ser um cemitério de
ossadas.
O site de hospedagem cometeu, assim, a meu ver, um erro, agindo totalmente
contra a ética, não só por desconsiderar a importância histórica das catacumbas,
como também por infringir a lei e desrespeitar os princípios do povo francês,
e, ainda, por oferecer um tipo de hospedagem que não condiz com o que se espera
de um serviço de hotelaria. Portanto, espero que a sociedade parisiense se
mobilize e consiga o fechamento desse "hotel-túmulo", permitindo o
acesso às catacumbas apenas a entidades capazes de preservá-las e de oferecer
visitas guiadas somente aos interessados em conhecer, com o devido respeito
pela memória das pessoas cujos restos mortais ali se encontram, uma parte
importante da história, da tradição e dos valores do povo francês.
