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sábado, 31 de outubro de 2015

ETICA E CIDADANIA - 4º Bimestre 2015


Airbnb cria polêmica ao oferecer hospedagem nas catacumbas de Paris, o 'maior túmulo do mundo'

Integrantes de conselho parisiense apelaram à prefeita por desrespeito a mortos; rede de túneis abriga restos mortais de 6 milhões de pessoas.
Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/10/airbnb-cria-polemica-ao-oferecer-hospedagem-nas-catacumbas-de-paris-o-maior-tumulo-do-mundo.html

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Airbnb teria pago 350 mil euros (R$1,68 milhão) para alugar o local (Fotos: BBC)

Você se hospedaria no "maior túmulo do mundo"? E se ele ficasse no subsolo de Paris?

O site de hospedagem Airbnb gerou controvérsia justamente ao oferecer esta possibilidade aos seus usuários.

Segundo a empresa, os vencedores de um concurso de Dia das Bruxas serão as primeiras pessoas a acordar nas catacumbas que ficam sob a capital da França, onde estão guardados os restos mortais de 6 milhões de pessoas.

Líderes da oposição do conselho da cidade recorreram à prefeita Anne Hidalgo pedindo que ela não esqueça de uma lei francesa que estabelece "devido respeito ao corpo humano mesmo após a morte".

'Retrato da morte'
Mas o que exatamente os hóspedes encontrarão nas catacumbas de Paris?

Bem, em primeiro lugar, milhões de ossos organizados como se fossem um "retrato da morte", segundo algumas descrições do local.

Apenas uma parte do labirinto de túneis é aberta ao público, e visitantes precisam descer 20 metros sob o solo para fazer um tour pela seção de 2km das catacumbas onde os ossos estão guardados.

Eles são recebidos no local pela frase: "Pare, este é o reino da morte". Esta é a primeira de uma série de mensagens gravadas nas paredes das catacumbas para fazer os visitantes "refletirem".

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Saúde pública
Os restos mortais que se encontram depositados nas catacumbas foram sendo levados pouco a pouco para o subsolo entre o final do século 18 e meados do século 19, quando os cemitérios superlotados de Paris foram fechados por questões de saúde pública.

Na época, acreditava-se que o vinho e o leite estragavam rapidamente por conta da decomposição dos corpos na cidade. O primeiro a ser fechado foi o Cemitério dos Inocentes, em 1786.

As catacumbas são parte de uma enorme rede de túneis existente nas entranhas de Paris formada pela extração de calcário e gesso a partir da época romana para serem usados na construção da cidade.

Em 1774, o colapso de uma de suas câmaras fez com que o rei Luís 16 mandasse reforçar e mapear esta rede. A grande maioria dos túneis está fechada para visitação pública desde 1955.

Entradas ocultas
No entanto, os mais de 250km de passagens subterrâneas podem ser acessados por meio de diversas entradas secretas espalhadas pela cidade, em seus esgotos, porões e túneis de metrô.

Elas abrigam uma série de segredos. Em 2004, a polícia encontrou um cinema completo, com telão, bar e assentos escavados na rocha. Também já foi palco de shows de arte clandestinos, performances teatrais e rituais e festas organizados por fãs das catacumbas, que são conhecidos por explorar os túneis por diversão.

Segundo a agência de notícias AFP, o Airbnb pagou até 350 mil euros (R$1,68 milhão) para alugar uma parte das catacumbas que pode ser visitada pelo público à noite.

A empresa diz que dois hóspedes ainda terão direito a um concerto subterrâneo e contação de histórias antes de dormir.

Segundo as regras da hospedagem, é "proibido perseguir fantasmas pelas galerias" das catacumbas.

Comentário:

As Catacumbas de Paris não representam apenas um cemitério onde jaz parte da população, mas também um pedaço importante da história da cidade, com suas tradições, memórias e até mesmo superstições. Isso, acredito eu, foi o que causou a maior parte da indignação da população para com a atitude desse site de hospedagem.
Não obstante ter pesado a superstição de os cemitérios serem os responsáveis pela decomposição do leite e do vinho, a criação desse enorme complexo funerário se concretizou, certamente, por se tratar de um aproveitamento inteligente das galerias subterrâneas já existentes, para solucionar o problema da superlotação e da dificuldade de conservação dos cemitérios parisienses, onde havia realmente o risco de concentração de focos de doenças.
 
Apesar de o maior atrativo para os que participaram do concurso insólito ser a possibilidade de dormir e acordar próximos a milhões de ossos e inscrições funestas, as catacumbas deveriam ser procuradas e preservadas não por esse tipo de curiosidade mórbida, mas pela sua importância histórica. Por exemplo, em 1788, soldados da Revolução Francesa mortos em combate foram sepultados diretamente nas catacumbas. Muito tempo depois, em 1871, em uma de suas câmaras subterrâneas , um grupo de anarquistas foi assassinado por membros da Comuna de Paris. O complexo também não só sobreviveu à Segunda Guerra Mundial, como serviu de abrigo para membros da Resistência Francesa nesse período, tendo até mesmo bunkers construídos em suas galerias.
 
Mesmo que atualmente, como a matéria menciona, apenas uma parte seja aberta à visitação, a curiosidade pelos túneis seculares e pelos possíveis segredos enterrados junto aos ossos ainda atrai muitos "aventureiros" , conhecidos como kataphiles, que exploram o subterrâneo parisiense. Desde a segunda metade do século XX até hoje em dia, os mais diversos grupos utilizam  as catacumbas com diferentes propósitos, sendo eles ativistas políticos, religiosos, artistas ou até mesmo usuários de drogas.
 
Além da questão histórica, para entender até que ponto é questionável transformar um cemitério, seja do tipo que for, em uma espécie de "hotel temático", sem correr o risco de atingir negativamente os valores morais dos descendentes do povo ali sepultado, é preciso primeiro entender sua história e o significado daquele local para essa gente.  O que o site de hospedagem viu como apenas uma nova forma de atrair clientes, em sua maioria turistas estrangeiros, e gerar maiores lucros, vai claramente contra os princípios do povo francês, princípios estes que foram inclusive transformados em uma  lei que exige o "devido respeito ao corpo humano mesmo após a morte", o que demonstra, claramente,  a importância dessa questão para a população não só de Paris, mas de toda a França.
 
Isto sem falar no risco à saúde, pois a Airbnb compromete a integridade física de seus "hóspedes", fazendo-os dormir em um ambiente insalubre e colocando-os em exposição direta a todo tipo de microorganismos e matéria putrefata. Também acredito que as instalações sanitárias, se existirem, são extremamente precárias, uma vez que não deve haver encanamento nem de água nem de esgoto  nessa área do subterrâneo, destinada a ser um cemitério de ossadas.
 
O site de hospedagem cometeu, assim, a meu ver, um erro, agindo totalmente contra a ética, não só por desconsiderar a importância histórica das catacumbas, como também por infringir a lei e desrespeitar os princípios do povo francês, e, ainda, por oferecer um tipo de hospedagem que não condiz com o que se espera de um serviço de hotelaria. Portanto, espero que a sociedade parisiense se mobilize e consiga o fechamento desse "hotel-túmulo", permitindo o acesso às catacumbas apenas a entidades capazes de preservá-las e de oferecer visitas guiadas somente aos interessados em conhecer, com o devido respeito pela memória das pessoas cujos restos mortais ali se encontram, uma parte importante da história, da tradição e dos valores do povo francês.